sexta-feira, 12 de junho de 2015

Mônada

Queria começar te dizendo que eu não fazia ideia do que estava fazendo quando comecei a escrever esse texto. Depois, em segundo plano, devo te avisar antecipadamente que qualquer frase que estiver fora do contexto ou fugir dos padrões considerados “normais” de sentido é puro charme poético.

Me desculpa se às vezes pareço incoerente ou confuso quando estou falando contigo. Na maioria das vezes eu perco totalmente o foco no que estou falando porque a tua beleza angelical e inebriante tira completamente a minha atenção e eu acabo me distraindo com esse seu sorriso lindo, profético e hipnotizante. E já que estamos falando do seu sorriso, é prudente eu te deixar avisada que ele deveria ser considerado patrimônio cultural da humanidade. Aposto que quando os deuses o esculpiram, eles não faziam ideia de que estavam construindo um dos fenômenos mais lindos da natureza. Queria transformar o teu riso num suvenir, depois convertê-lo em pérola, para guardá-lo dentro de uma ostra e posicioná-lo estrategicamente em cima da minha cômoda, para que fosse a primeira coisa que eu pudesse botar meus olhos pela manhã, logo ao acordar. O costume, o remanejamento, a métrica, a redundância, a escala rítmica, as rimas e todas essas bobagens poéticas... nada disso tem relevância ou significado algum quando a matéria e o tema da cantiga é você. Seu sorriso anula a razão de todas essas convenções bobas literárias.

Mesmo de início, te analisando de forma totalmente superficial e breve, nesse curto espaço de tempo anterior eu percebi o quão sensacional, magnífica e extraordinária você é. Eu seria apenas um idiota se tivesse deixado alguém tão apaixonante e fabulosa como você passar por mim como se fosse nada. Deixa eu te dizer uma coisa: devo admitir que foi encantador perceber que você é bem maior do que eu, mais perspicaz, inteligente e engraçada. A minha versão melhorada. Nunca antes na história da humanidade existiu alguém que soube reconstruir um coração de maneira tão delicada, rápida e completa como você. Sempre será o antídoto para a dor, a antítese de tudo o que há de ruim.

Eu gosto da ausência de maquiagem no teu rosto, do branco inacreditavelmente belo, suave e fluorescente da tua pele, do seu sorriso largo, meigo e aconchegante, onde eu certamente armaria uma rede e me deitaria deliciosamente aguardando o dia clarear. Sou obcecado pelo jeito intolerante, petulante e insolente que você me olha quando eu falo alguma besteira gigantesca ou quando desembesto a tagarelar feito louco, me castigando com os olhos de maneira tão genial, oblíqua e diagonal, só para depois sentenciar: “cê é besta, viu, Marcus?!”. Desculpa, mas eu devo confessar que a sua cara de decepção quando eu não consigo lembrar a ordem dos seus sobrenomes é a coisa mais dolorosa, hilária e fofa que existe. É possível que eu tenha me apaixonado pela tua pele cor de mármore e pelo teu cheiro doce & sutil de pêssego com baunilha. É maravilhosamente revigorante o calor do teu abraço, me sinto como um mortal nos braços de uma deusa. Sentir tuas mãos finas tateando meu rosto e envolvendo o meu pescoço é como botar a cara pra fora da janela num dia claro de primavera. É como torrões de açúcar massageando a minha pele. Te beijar é como ir de um ponto a outro da galáxia em questão de segundos. Pela primeira vez na vida não sinto a necessidade pedante e lamentável de rebuscar tanto um texto. Isso eu deixo pra época em que eu invocava o ausente e escrevia sobre o que não tinha. Alguém falou uma vez que a gente escreve sobre o que nos falta, que invocamos o ausente. Isso é tão verdade quanto mentira ao mesmo tempo. Tudo depende do momento, das circunstâncias. Hoje escrevo sobre o que eu já tenho, sobre o reflexo do teu espírito que mora no meu ser, sobre amanhecer e saber que você vai estar lá pra abrir a porta pra mim e me guardar no teu abraço toda vez que eu chegar atrasado, sobre lembrar que existe alguém tão linda, incrível, adorável e doce como você por aí.

Eu continuo me apaixonando por você todos os dias. É tão fácil quanto abrir a janela pra deixar o sol de primavera entrar. Agora tudo que eu vejo e escuto me lembra você: Uma música no rádio. Um pôr do Sol lento e sazonal. Um quadro numa camisa. Uma camisa num botão. A canção de ninar sublime que as cigarras que moram no quintal da minha casa entoam minutos antes d’eu dormir. Um tênis vermelho, surrado e sujo. Uma data. Um filme. Uma cor. Um sobrenome. Um cordão, um pingente, um cadarço desamarrado. As rosas do Cairo. A hora de voltar pra casa. A termodinâmica. Todos os cascos de tartarugas. Uma estação. Um sofá vermelho. Um campo vivo de flores silvestres. Um fim de semana na tua casa. Uma garrafa de chá gelado. Um café preto. O açúcar mascavo. O antigo Egito. Todos os fariseus e Faraós que cantam e te encantam. Todos os microorganismos, unicelulares e pluricelulares. Todas as epopéias espaciais e medievais. Todas as listras, pretas e brancas. Todas as coisas em você que me lembram eu mesmo. Todo contraste. O claro e o escuro, o azul e o preto, o branco e o dourado. Toda demora. Toda urgência. Todos os trejeitos. Todas as sonatas épicas e viagens temporais. Todos os azuis dos teus cabelos. Todo cinza. Todo dia nublado e ensolarado. Toda meiose. Toda mitose. Toda célula minha que parece multiplicar a cada toque seu. Todos os acordes dissonantes, oitavados, relativos e diminutos de uma ópera. Todo mês. Toda fotossíntese. Toda massa, toda força, toda alquimia cáustica. Todo rock, todo pop, toda bossa. Todos os labirintos e teoremas. Toda estação. Todo vórtice temporal. Toda radiação ultravioleta. Todos os elétrons, os íons e os cátions. Todos os mols da minha loucura balanceados junto aos teus infinitos. Todas as leis que regem o funcionamento dos planetas e tentam, inútil e arrogantemente, explicar a beleza dos corpos celestiais (mal sabemos nós que as estrelas são indiferentes à astronomia). Todo o dia. Cada sorriso teu. Cada estampa de flor no meu lençol de cama. Um grampo de cabelo. Todo minuto seu e todo segundo meu. Nenhum astro, nenhum cometa e nenhuma nebulosa podem ser tão grandiosos frente a todo o amor que eu guardei pra te dar. Me tornei mais terno, brando, sensível, racional, carinhoso e substancial depois de você. Estar ao seu lado é como descobrir uma linda música nova, que você não quer parar de ouvir nunca mais. Eu colocaria os sete mares, todos os meus infinitos e cromossomos numa concha só pra te dar e ampliaria os segundos em minutos, os minutos em horas, as horas em dias e os dias em eternidade, só pra ficar mais tempo ao seu lado. Te presentearia com as sete maravilhas do mundo, uma em cada dia da semana e erradicaria da humanidade todos os sete pecados capitais, só para deixar o mundo mais confortável para nós dois. Reorganizaria e comprimiria facilmente todas as leis da física, só para que as noites e os dias durassem mais tempo quando eu estivesse com você. Você é origem, profundidade e ressonância. É a transformação, a realização e exemplo do amor que nos prometeram em todas as vidas passadas. Tão misteriosa e fantástica ao mesmo tempo, se transformou em presságio de dias melhores. Toda verdade e beleza, toda pureza, charme, síntese e claridade... és a partícula do meu tudo, minha eterna Mônada.




Obs.: desculpa não ter te entregado esse texto escrito com a minha própria letra, é que ela é tão horrorosa que você jamais teria conseguido sair da primeira linha.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Uns Aos Outros

Bom, antes de mais nada, gostaria de lhe desejar um bom dia, boa tarde ou boa noite. Não sei exatamente que horas ou em que momento do dia você estará lendo esse texto.

Em segundo lugar, gostaria de pedir perdão pela minha terrível escrita poética, pela minha clara falta de habilidade em formular uma frase que pareça ter sentido e pela enxurrada de clichês que você lerá a seguir (é que é difícil me livrar deles quando o centro do monólogo é você). Jamais terei metade da sua sensibilidade, da sua intimidade com a caneta e o papel e da sua capacidade de transformar uma situação constrangedora no momento mais engraçado do mundo.

Lembro-me que uma vez você me disse que o amor nos tira alguém aparentemente “bom” para nos dar alguém melhor. Nunca pude concordar mais com algo que você tenha dito na vida. Tão sensato quanto profético ao mesmo tempo. Aliás, acho que essa foi a única vez em que eu concordei com algo que você tenha dito. “Melhor” é sempre bem-vindo, ainda mais quando você descobre que esse “melhor” sabe como adornar e aquecer um coração tão bem quanto qualquer Deusa que já tenha existido.

Em um de seus devaneios loucos, você disse que se estivéssemos em um filme, eu certamente seria aquele motoqueiro de jaqueta de couro que nunca vai às aulas mas só tira notas boas, ao passo que você seria o meu fiel escudeiro. Agora imagina só se esse filme fosse dirigido pelo John Hughes... Certamente seria uma obra-prima inquestionável. Um registro irretocável sobre nossos vinte e poucos anos. Já faltamos a quase todas as aulas, já temos a jaqueta de couro, o fabuloso gosto musical, o All Star surrado e a garota dos sonhos. Agora só falta começar a tirar notas boas.

O meu conceito de lealdade, determinação e bondade mudaram depois que te conheci. A sensação de solidão deu lugar à completude. No começo era como se eu estivesse olhando para um espelho, onde via cada átomo, cada célula e cada infinito da minha loucura refletidos de maneira magistral ali. E até hoje permanece assim. Nunca pude compreender como alguém pode se preocupar basicamente com as mesmas coisas que eu e ser tão parecido comigo quanto diferente ao mesmo tempo. Talvez eu encontre as respostas olhando mais de perto pra esse intenso sonho lúcido que é o seu mundo.

Uma das maiores lições que pude aprender contigo foi a de que amar é como se jogar de um trem em movimento: você pode cair numa plantação de flores campestres, num rio doce ou num emaranhado de espinhos. Eu poderia redigir uma monografia, um tratado, uma tese completa de mestrado ou doutorado sobre o que é cair num emaranhado de espinhos. E por falar em espinhos, acredito que nós dois somos especialistas neles, hein?! Quando você me falou que o amor é um vespeiro que eu nunca deveria cutucar, por um milésimo de segundo quis acreditar em você e seguir suas palavras (o que teria sido bem menos doloroso, né, vamos combinar), mas o meu medo do desconhecido e a minha vontade de desbravá-lo falou mais alto. E não é isso o que realmente somos? Errantes, aventureiros, neuróticos, artistas e paranóicos? Todos ao mesmo tempo, sem tirar nem pôr, sempre ingerindo bebida alcoólica suficiente para começar a divagar sobre qual o melhor caminho a percorrer, sobre as viagens temporais e interestelares, sobre poesia romântica surrealista de jovens adultos ingênuos e ousados, sobre o passado, sobre o presente e sobre o futuro simultaneamente, e como teria sido bom se tivéssemos sido sugados por um buraco negro, só pela curiosidade de saber como é ou o que nos espera do outro lado. Ainda acho que a melhor forma de viajar no tempo é através das palavras. Isso Einstein não previu.

Aprendi com você que nenhum sofrimento do mundo é insuportável quando se assiste aos filmes fundamentais, quando se conhece as bandas essenciais e quando se tem as pessoas certas pra te trazer de volta quando você bater no chão.

Admiro o fato de você ter reencontrado a felicidade e ter reconstruído seu mundo tijolo por tijolo, sinapse por sinapse, artéria por artéria, molécula por molécula, mesmo depois de uma tenebrosa tempestade negra ter ameaçado levar embora a única coisa com a qual você se importa nessa vida: o amor (e você sabe que mesmo ela batendo na sua cintura, ela é muito maior que você, mais sensata e sempre estará do pé à cabeça coberta de razão, por mais que seja complicado, às vezes, tentar entender os seus motivos).

Bravura e coragem parecem ter sido feitos pra você, pois sem eles você jamais teria passado por esse emaranhado de espinhos e permanecido com o coração tão maior do que era antes. Mas é o que dizem por aí: as coisas precisam ficar erradas antes de ficarem certas.

Todos os poetas mortos, trovadores românticos dos séculos passados e cantores apaixonados contemporâneos invejariam a sua capacidade de falar sobre o amor sem parecer cínico, clichê, insolente, óbvio, absurdo ou abusado.

Desde o início dos tempos, quando a humanidade começou a dar os seus primeiros passos em direção à plenitude; quando as primeiras formas de vida subaquática foram criadas; quando os resquícios daquele asteróide enorme que caiu por aqui deu origem à Lua; quando a gravidade tratou de nos mostrar qual é o nosso lugar no mundo; quando os antigos deuses-astronautas ergueram pirâmides colossais, construções monumentais e o Stonehenge há milhares de anos nesse globo; quando o Rio Nilo encontrou o seu caminho para a glória; quando a escuridão celestial abriu espaço para a pequena gotícula que é a terra nesse enorme oceano cósmico, nunca houve alguém que soube produzir beleza e manipular os quatro elementos tão bem quanto você.



Você está preparado para a verdade? Então lá vai.


01   - Brócolis com molho shoyu é uma delícia. Achei que um cara saudável e vigoroso como você saberia disso, mas tô vendo que me enganei terrivelmente nisso também.

02   - O final de How I Met Your Mother é brilhante!!! Isso é um fato incontestável. Poderia ter sido clichê? Poderia, mas foi doloroso, complicado e difícil de aceitar. Assim é a vida.

03   – Eu sei que você nunca se manifestou sobre isso, mas deixa eu te dizer uma coisa antes que você possa formar uma opinião: Coca-Cola é melhor que Pepsi, aceite esta realidade. Quem fala o contrário é porque quer pagar de cult, revolucionário e entendedor da psique humana.

04   – O AM do Arctic Monkeys é uma ofensa inacreditável, mas vai confessar que você não fica arrepiado quando toca No.1 Party Anthem, Mad Sounds ou I Wanna Be Yours? Pense a respeito. Lide com isso como um adulto.

05   - O Oasis poderia ter sido a melhor banda do mundo se no lugar do Liam Gallagher tivéssemos o John Lennon cantando, desculpa a sinceridade.

06   - De 0 a 10, eu te daria um 8. Os 2 restantes eu deixaria para completar na próxima vez em que você se comportar de maneira displicente, esnobe ou simplesmente der de ombros quando eu te indicar alguma banda nova (o que pode vir a acontecer amanhã mesmo ou na semana que vem). Uma atitude tanto louvável quanto desprezível, diga-se de passagem.

07   – Os finais de Efeito Borboleta (tanto o original quanto o alternativo) e o AM do Wilco são absurdamente maravilhosos. A propósito, acho que essa é a única coisa com a qual você concorda comigo na vida.

08   - Não faço a mínima ideia de como terminar esse texto (aliás, também invejo esse seu talento de terminar textos com versos e estrofes impactantes de arremate), mas rezo todos os dias para que um dia a natureza me torne alguém tão doce, amoroso, gentil, sensível, lírico, influído, lúcido, engraçado e otimista quanto você.




No fim de todas as coisas que conhecemos por matéria, quando as cortinas se fecharem anunciando o encerramento do espetáculo, não fique apavorado, pois na essência de tudo que é eterno nós somos apenas poeira cósmica, condenados a embarcar em uma incrível e perpétua jornada pelas estrelas.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Quartzo

Hoje eu acordei com febre
Me dirigi até o terminal e entrei num ônibus
Até então tudo normal, nada fora dos padrões
Todos entretidos em suas telas minúsculas
Nada fora dos padrões, nenhuma surpresa
Nada que me tirasse desse constante estado de apatia mental
Candycrushs, rápidas mensagens instantâneas visualizadas
Snaps, gadgets ultra-modernos e aplicativos de
Ascensão social rápida e artificial falam por todos eles
Todos preocupados demais com a artificialidade de suas respostas
Chego ao meu destino e desço do ônibus
O que vejo é a mais pura forma poética de fuga da realidade
Uma luz forte no poste mais próximo ilumina um garoto
Suas mãos infantes e firmes seguram com força um boneco
de plástico do Capitão América
Primeira vez que eu vejo isso na minha vida
Se você soubesse que ia morrer nos próximos dez minutos
O que você faria?
E se você esquecesse seu nome amanhã ao acordar?
E percebesse que não tem mais que atender a expectativas sociais?
O telefone toca, hesito em atender
Uma chamada perdida
Toca de novo, talvez uma última chamada?
Atendo ------------- engano
Mais um toque e pulo num salto
Minhas mãos avançam ligeiras em direção ao criado-mudo onde está o aparelho
Olho no identificador de chamadas
Número privado ------------ recuso.
Coloco o telefone cuidadosamente na geladeira.

Num instante sou transportado para outro tempo, outro espaço
Toda filosofia barata outrora destilada em quantidades absurdas de vodka
Se transforma inesperadamente em armas químicas, plutônio e sangue
(Não necessariamente nessa ordem)
Minhas orelhas frias detectam a posição do inimigo
Meu olfato, a essa altura já vencido pelo forte odor de chumbo,
Grafite e enxofre parece querer me delatar ao meu agressor
Ele fica ainda maior e mais tenebroso
À medida em que o céu acima de mim e dos meus desejos fica mais escuro
Tanques de guerra passam ao meu lado discretos, sem fazer barulho
Todos eles guiados por figuras disformes e esqueléticas gigantes
São atraídos em direção ao núcleo do vulcão em chamas
E desaparecem dentro da noite
Poderia até pensar que fosse Deus
Mas não acho que Ele teria tanto poder de fogo assim ao seu alcance
Logo percebo que essa é uma guerra da qual eu não quero fazer parte
Faço o contorno e volto.
Recobro a consciência e tateio o espaço ao meu redor
Recupero a sensibilidade, o orgulho, a preguiça e o sentimento de culpa
Um relógio digital na parede
Um computador velho, porém em bom estado
E a foto da pessoa que amo na cabeceira sentenciam:
Feliz 2015.
Não deve ser tão ruim assim morrer sozinho
Não espero que você entenda minha terrível
tendência em acreditar no improvável, no místico, no inevitável
E em como as coisas podem piorar inacreditavelmente de uma hora pra outra
Muito menos critique a minha falta de talento para elaborar metáforas
Mas ainda que você me mate ao final dessa enunciação
Eu sempre poderei ser o que você quiser
Na hora que você quiser
Enquanto o tempo me deixar ser
Pra você.

Não existe poesia que sobreviva a uma chuva de ácido sulfúrico,
Vinagre, insensatez e pessimismo a essa hora da manhã
Não há nada a ser feito, nada a ser cobrado
Só apoiarei minha cabeça no teu colo e esperarei o tempo ou
o sabonete de laranja levar o teu cheiro pra longe
Cada ponto minúsculo no céu é um Sol se pondo
Cada lágrima sortida que tu derramas no seu vestido estampado de flor
É um pedido silencioso e um motivo discreto para que eu fique mais um pouco
A cada passo teu em minha direção é possível sentir a gravidade
A distância, o frio na barriga, a música que teus pés produzem a cada passo
Medir o espaço entre nossos corpos: meu passatempo favorito
Fico ainda mais nervoso quando você se aproxima
Determinada de uma vez por todas a me neutralizar com teus beijos
Queria morar nos teus lábios e me deitar sobre teu corpo
Como quem deita num pedaço de nuvem ------ [acho que descobriríamos o fogo]
E teus olhos mais se assemelham a dois enormes cometas agora
No escuro que ameaça nos encobrir da cabeça aos pés
Teu batom cor de morte ainda me assombra em sonhos voluptuosos
Risco na parede atrás do teu pescoço quantos anos ainda nos restam
E toda vez que aqueço meus dedos atrás da tua nuca
É sinal de que estou prestes a desaparecer completamente dentro de ti
Nos teus lábios cor de framboesa me perco e, por um minuto, me encontro novamente e encontro em você o antídoto para a desesperança, na vontade de me afogar no oceano entre as ondas do teu cabelo
Queria morar na tua rua
Queria que teu sorriso tocasse na rádio todo dia pela manhã
Todos os meus desejos mais obscuros e pueris se transformam lentamente em
pequenas pedras de granito, que se acumulam aos montes embaixo da minha cama
Desvio o olhar por um momento breve
Boto pela primeira vez minha cara pra fora na noite fria
Sinto o vento gelado e violento me castigar como um carrasco
A sensação é terrível, parece que minhas pálpebras estão prestes a dizer adeus
O último adeus, mais uma despedida, o último encontro da semana, a última frase do dia
Sempre voltarei quando você quiser, se você quiser

Ou se eu não perder o último ônibus que passa na tua rua.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Queda Livre #3

Parte I – Refresh (ou Eco)

Se você começou a ler esse texto, você acaba de ativar o elemento escriptor e agora não tem como mais voltar atrás. “Mas o que diabos é isso?” você deve estar se perguntando. Bom, a surpresa é que eu também não sei, mas se você quiser ir até o final, vá por sua conta e risco. Primeiramente desculpas pelo excesso de melodrama que certamente você notará banhado em cada palavra e cada linha desse texto até o fim, é que fica difícil falar sobre um assunto tão delicado sem apelar pro lado mais mesquinho e egoísta da minha alma.
A essa altura do campeonato você já deve saber que tentar fazer com que ela acredite no amor novamente – por mais que você acredite que esta é uma tarefa passível de sucesso – seria tão fácil e eficaz quanto acelerar um átomo na velocidade da luz ou resolver uma equação de segundo grau de olhos vendados. E admita que você nunca foi bom em física quântica, nem em matemática. Ela é mais esperta que você, mais inteligente, determinada, mais delicada, mais pura, mais dócil, mais teimosa e mais cabeça dura também. Você é um amontoado de erros irremediáveis. Talvez o seu maior erro foi ter pensado que fazê-la acreditar novamente fosse uma tarefa sua, sendo que essa tarefa é dela. Essencialmente dela. De ninguém mais. A minha tarefa é te trazer de volta à realidade quando você estiver encarando o nada na busca das soluções para os seus teoremas e de uma cura para a sua paranóia, como se essa fosse a atividade mais intelectual e produtiva do mundo.
Você fez tudo que um ser humano normal poderia fazer para que as coisas dessem certo: ergueu um império celestial invejável, travou batalhas épicas na Lua com demônios e dragões megalomaníacos, canhestros, débeis, egoístas e invejosos só para conseguir conquistar um lugar na mesma Lua que ela construiu pra vocês dois; inventou de enfiar uma bomba nuclear dentro do Sol, só para que ele brilhasse mais forte quando as nuvens espessas dos dias nublados ameaçassem monopolizar os céus; construiu uma estrela dentro de outra estrela; agradou a gregos e troianos todas as vezes que viu que isso era necessário para manter o equilíbrio e afagou delicadamente cada centímetro da sua pele branca, só para sentir o que é ser a pessoa mais feliz do mundo, mesmo que por breves segundos.
Você se lembra qual foi a sensação de assistir Star Wars pela primeira vez? Você enfiou na cabeça a ideia de que precisava realizar um ato tão grandioso quanto o de Luke e da Aliança Rebelde, destruir a sua própria estrela da morte. Bom, acho que esse será o seu ato grandioso. Fazê-la acreditar. Mas lembre-se que se ela nunca mais deixar que essa flor perene fecunde em seu coração novamente, saiba que a culpa é inteiramente dela também, e só dela. De mais ninguém. Mas também isso não é o fim do mundo, é? Então é assim que as coisas acabam? Não. O amor não é pra todo mundo mesmo. Lembre-se disso.
Amá-la é como ouvir Miles Davis numa tarde de sexta-feira, e você é só amargura, pensamentos impuros e vícios de linguagem. Você é só um amontoado de erros irremediáveis. Sempre confiou nas pessoas que menos acreditaram em você. Talvez ela entenda melhor do amor do que você... ou não também. Talvez ela entenda melhor que você mesmo essa bagunça obscura que é o seu mundo. Nunca se sabe. Mas agora você sabe que a chama do amor não queima para sempre, é o que eles dizem. Essa taça de vinho só é digna de ser compartilhada com aqueles que tem a coragem de ir colher direto da videira.




Parte II – Granada (Ou o avesso do avesso)

Talvez a sua maior qualidade é também o seu maior defeito: perfeccionista demais. Tão preocupado em encontrar sensatez, bondade e lucidez nos outros, sendo que não consegue encontrar isso em você mesmo. Lamentável. É claro que se ela quisesse, ela poderia acreditar novamente (como se isso fosse uma questão de escolha). É óbvio que não é tão simples assim. Se fosse, todos escolheriam amar, todos escolheriam acreditar e envelheceriam juntos. Mesmo que seus corações tivessem sido esmagados pelo peso insuportável e pela violência catastrófica de um asteróide enorme e flamejante, destruindo qualquer otimismo e esperança dentro de você, sempre terá alguém lá fora a espera do seu amor.
O inesquecível John Keating disse em A Sociedade dos Poetas Mortos que medicina, direito, administração, engenharia etc, tudo isso é necessário pra vida, claro. Mas o que realmente importa é a poesia, é a lírica, a métrica, o inverso do que se diz, a busca incessante por algo que torne a vida mais suportável: o amor. Mas não é isso que todo mundo procura na vida? O amor puro, simples, poético e incondicional? Não é isso o que você tem procurado desde que começou a perceber o mundo ao seu redor? Me dói de maneira terrivelmente insuportável saber que você se recusa a acreditar no amor novamente. Me dói porque parece que nunca terei o seu amor enquanto nós dois existirmos e estivermos conectados, por mais que você saiba que ele exista. E você sabe tão bem. Lhe falta coragem para se entregar. Porra, se você não acredita mais, então o que é isso que nós estamos fazendo? Então nós dois somos uma mentira? A gente é uma mentira? Você é uma mentira e eu também? Tudo que eu te disser, tudo o que eu fizer, todos os meus gestos e demonstrações de afeto então serão uma grande mentira? Será tudo mentira pra você? Aparentemente, essa é a sua lógica. Nunca irei entender porque uma pessoa tão fabulosa como você gostaria de alguém como eu. Você é completa por doçura e delicadeza... e eu sou apenas um lunático, sensacionalista e arrogante. Mas o que eu penso que sou, ou até mesmo o que as pessoas pensam que sou é exatamente aquilo que eu não sou. Quanto mais eu penso, mais eu sofro. Só não acho justo você escolher viver desse jeito e deixar de acreditar em algo tão puro só porque alguém te fez sofrer e foi leviano, cruel e imbecil com você. É quase um insulto você me dizer que não acredita mais, pois é o mesmo que me dizer que o responsável pelo seu sofrimento passado foi a única pessoa que você foi e será capaz de amar na vida. É o mesmo que me dizer que nunca mais será capaz de amar ninguém, mesmo que eu seja o melhor pra você, mesmo que eles sejam os melhores pra você, mesmo que eu seja bom, mesmo que eu seja engraçado e carinhoso, mesmo que eu seja um filho da puta pervertido, mesmo que eu te beije com a força de mil trovões imponentes e furiosos. Você é a mesa e eu sou o prato.


A solidão é um estado intrínseco à alma, um sentimento inerente à condição humana... e o pior tipo de solidão é a solidão a dois. Tão esclarecedor. Graças a alguma intervenção divina as coisas nunca chegaram a esse ponto pra mim, mas vi as coisas desmoronarem e vi mil corpos caírem à minha direita, outros mil à minha esquerda. Levando em consideração todos os relacionamentos que já nasceram póstumos e observando a sequência inacreditável de erros cometidos por essas pessoas, concluo que é melhor ficar sozinho do que estar num relacionamento no qual você nunca será capaz de amar ou nunca será amado. Apenas aproveite o dia e faça com que sua vida seja extraordinária.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Mármore

Quando terminar o mês de maio
E tua face repousar sobre a minha
Quando os mundos estiverem alinhados e demorar pra anoitecer
Quando às 5 da manhã o sol resolver se exibir, cheio de charme e arrogância
Quando a linha tênue que separa seu sorriso de uma nebulosa se quebrar
Quando a maçã for mordida e o primeiro pecado ser cometido
Quando os ventos de maio roçarem ríspidos, impetuosos ou suaves na sua orelha
Quando seu cabelo azul escarlate, turquesa ou anil me disserem que ainda temos tempo
Quando minha péssima escrita poética deixar de ser tão evidente
Quando todos os clichês se destilarem em meio a padrões constantes de demonstrações de afeto
Quando a pequenez da minha alma se revelar diante da grandiosidade da sua
Quando a metalinguagem não fizer mais diferença
Quando todos os advérbios, pronomes e adjetivos perderem o sentido
E não forem suficientes para te descrever
Quando eu aprender a falar a língua dos anjos (ou a sua)
Quando todas as vogais abertas, fechadas & redondas se unirem
Quando todas as rimas toantes e consoantes, alternadas e paralelas, raras e preciosas, ricas e pobres conseguirem coexistir dentro de uma mesma escala métrica
Quando eu beijar as tuas mãos frias e em seguida emparelhar tuas bochechas com as minhas
Quando eu puder herdar o teu sobrenome (ou muito antes disso)
Quando não restar mais dúvida de que pertencemos um ao outro
Quando o tempo resolver me lembrar de todos os substantivos
Quando a porta da frente bater forte e eu perceber que você chegou
Quando a última brisa do outono soprar os polens em minha direção, me fazendo sentir o cheiro delicado da tua juventude
Quando todos os cometas passarem revelando o melhor de nós, me deixando apenas com a essência de sua magnitude
Quando todo o mau agouro se desmanchar em meio à radiação cósmica
Quando as estrelas decidirem por si só que já é hora de você me deixar habitar à tua luz
Quando eu correr ao teu encontro, todos os dias sempre às 18:00h
E sentir você me envolver no seu abraço
Quando os sete mares se unirem e todos os continentes emergirem de maneira unilateral
Quando todas as leis da física puderem ser explicadas de um jeito que faça sentido só para nós dois
Quando os meus olhos marejarem levemente depois de um beijo teu
Quando tua boca encostar no meu nariz gelado
Quando o caminho da tua casa se estender feito um tapete em minha direção
Quando não houver mais memória pra tanta foto no seu celular
Quando todos os momentos que não registramos em fotos se tornarem eternos
Quando tua pele alva se confundir com a minha e seus olhos puderem vislumbrar todas as estações que ainda estão por vir

Quando no início do inverno você acordar nos meus braços e abrir os olhos, entregarei todos os oceanos nas tuas mãos e direi que te amo.

terça-feira, 31 de março de 2015

Sintaxe

Eu to em todos os lugares
Eu sou onipresente
Eu to em sua mente
Na gravidade
No fungo da rachadura
Da sua parede
Eu rastejo, ilumino & mordo
Atravesso onze dimensões
E transcendo o tempo e o espaço
Só pra te encontrar
Na força, na massa
Nas alcovas e nas quebradas
Nas luzes da cidade, no teto solar
Na fumaça esverdeada que emana dos bueiros
Na glicose, no dióxido de carbono
Na fenda eletrostática perdida no fundo do oceano
Na verdade do que disseram sobre mim
Na realidade da minha própria contradição
Nas expedições interestelares
Eu sou o primeiro, o segundo e o terceiro ato
Eu sou o caminho de volta pra casa
O alvorecer da justiça
Eu sou o som e a fúria
Os estilhaços de uma bala perdida numa guerra egoísta
O paradoxo de uma viagem temporal mal sucedida
A força gravitacional na órbita de um buraco negro
Eu te puxo por detrás do véu
Pra dentro da escuridão
E te arrasto pra dentro do vazio que a engole por inteiro
Eu sou meio frio e meio amargo
O gosto azedo e alcalino da infinitude celestial
As entrelinhas num verso de um soneto perverso que ainda não foi lido
Eu to no tédio e na libido
No prédio ao lado, na alquimia, no sufoco
Nos personagens multidimensionais de uma odisseia espacial
Na moça, na praça, na menina
Na esquina, no fundo do seu quintal
Onde não há de haver nenhum mal
Eu sou cavaleiro, marginal
Camuflado ao lixo ocidental
E você, a singularidade da pérola de uma ostra
Sou a porta, a sorte, o vento que bate
No seu cabelo cor de sol
Eu quero o seu e quero o meu (o que é justo e o que é cruel)
A pergunta, a resposta, o desespero e a esperança
A profundidade e a beleza da sua expressão melancólica
A sinceridade do seu sorriso vespertino ao me encontrar
Eu to no vértice, nos holofotes, na sua cola
Nas horas, no prelúdio, na ignomínia
Na claridade da tua pele alva
Na tridimensionalidade do teu olhar
No carvalho da tua retina
No abraço que te dei há 37 dias
Nos beijos que ainda vou te dar
Na tentativa de te reencontrar
Em todas as estações, nos meses, nos anos
Na esquina da rua da felicidade (onde escrevo o teu nome)
Na tua foto na parede
Quero morar em todos os seus infinitos
Nas tuas hemácias, nos meus glóbulos brancos
No teu sorriso, onde me refaço
Nas suas moléculas, seus átomos e suas células
Nos aplausos, nos olhares de aprovação

Você é uma versão --------------------
-------------------------------------------------[  aprimorada de mim mesmo.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Entropia

Parte I – Padrão Formântico

Recentemente descobri que é mais fácil balancear um mol, multiplicar polinômios e acelerar um átomo na velocidade da luz do que tentar entender o amor. Descobri que o amor é coragem. Descobri que tentar entender o amor é tão eficaz quanto cavar com uma colher até o Japão. Um amigo querido realizou um movimento lúdico com as mãos e me ajudou a descobrir que felicidade pode ser tanto ouvir Wilco no fim de tarde de uma sexta-feira, quanto caminhar de volta pra casa na companhia de uma amiga recém conhecida, no último dia de aula, conversando trivialidades enquanto a observa gesticular maravilhosamente com os braços. E todos aqueles movimentos regidos pela sua fala só não me parecem tão espetaculares quanto o seu cabelo cor de sol brincando de dançar tango com o vento. Isso tudo até a cortina celestial cintilante lá no alto cobrir nossas cabeças. Felicidade é você perceber o quanto esses pequenos momentos podem ser grandiosos, especiais e repletos de significado. Descobri que o mundo é banhado por uma quantidade inacreditável de pessoas boas, mas também é infestado de gente pequena, fria, hipócrita, egoísta, falsa, cínica e dissimulada, que não sabe amar. Descobri também que amor é aquilo que acontece quando você descobre aquela música nova e agradável de uma banda desconhecida e fica ouvindo inúmeras, incontáveis e infinitas vezes sem enjoar. Certa vez, ouvindo uma canção do Depeche Mode, descobri que palavras são triviais, e que só os sentimentos são reais e intensos. Descobri que o amor é mais do que a ideia convencional que todos têm sobre ele, pois assim eles aprenderam nas canções populares e nos filmes hollywoodianos, como acordar ao lado de alguém importante e especial, procriar e constituir família. Amor é mais, caralho! É mais do que a dor. Amor é sonhar, vislumbrar, é deixar que um amigo saiba que ele não precisa passar sozinho por um momento de dificuldade. É fazer um amigo rir mesmo quando aparentemente não há motivo nenhum pra isso. Descobri que amor próprio é matar alguém dentro de você e perceber que essa foi a decisão mais sábia que você já tomou na vida, enquanto a observa morrer aos poucos.

Era 1º de Janeiro, de um ano que eu não consigo me lembrar agora. Estávamos vivendo o primeiro dia do ano, e estávamos todos quietos, unidos, numa harmonia rara e sincronizada, reunidos ao redor de uma mesa, saboreando o restante da comida natalina que havia sobrado e sonhando o futuro, trocando olhares e sorrisos enquanto um pernil generoso assava silenciosamente no forno. Foi nesse momento que eu lembrei de uma série de contos do Raymond Carver que eu havia lido em outra ocasião, chamada “De Que Falamos Quando Falamos De Amor”, em que ele dizia assim: “Eu conseguia ouvir meu coração batendo. Eu conseguia ouvir o coração de todo mundo. Eu conseguia ouvir o ruído humano que nós, sentados lá, fazíamos, nenhum de nós se moveu, nem mesmo quando a cozinha ficou escura”. Sentado ali eu realmente podia ouvir o ruído humano, o coração de todos. Instantaneamente eu me surpreendi com a capacidade que um momento pequeno tem de se encher de significado e compreendi o real sentido do que é amar.



Parte II – Desconstruindo o Ontem

Nunca entendi e nunca irei entender como alguém consegue se tornar tão incolor como você se tornou em tão pouco tempo. Sua vida pode ser uma coisa boa agora, mas com certeza não é a que você imagina. Pessoas estúpidas ao seu redor enchendo a sua bola e tecendo uma malha de elogios e falsos comentários harmoniosos pode parecer perfeitamente reconfortante e podem ser os elementos essenciais para a composição da mise-en-scène do seu ego, mas isso só te dá uma breve ilusão de segurança e uma confiança falsa e idiota, realçando de maneira extraordinária e inacreditável a sua arrogância irritante de jovem-adulta ingênua, que nada sabe do mundo (nem do amor), para algumas pessoas que estão ao seu redor, que te amam e que são dotadas de uma percepção aflorada. Até consigo imaginar como você se sente: como quem se joga de um prédio de 15 andares na esperança de que vai voar, ao invés de se espatifar no chão, se partindo em mil pedaços (acredite, eu também já me senti assim); você se sente intocável, fantástica e deslumbrante, abençoada com o dom da sensatez; você se sente como uma pessoa que todos querem estar por perto (mas, eventualmente, todos acabam se afastando quando descobrem que você é mais nociva do que heroína, mais letal do que um tumor no cérebro e mais murcha do que uma ameixa); você se sente como um soro da verdade e da confiança, mas na realidade, está mais para soro da estupidez. Todo esse teatro humano construído a sua volta me dá uma ideia bem clara e concisa de quem você é, e isso me dá nojo, me dá ânsia de vômito e me faz perceber que o seu coração não passa de um quarto vazio, uma rua esquecida pelo tempo que não serve de alimento nem para a saudade.

Talvez futuros acadêmicos, trabalhos e outras coisas mais podem passar por sua cabeça, como a de qualquer um, mas uma coisa é certa: você é um desastre no amor! Você nunca vai entender qual é o real motivo que ele tinha, porque ele esteve em sua cara o tempo todo, todo mundo viu, menos você. Um dia, você vai se sentir só, (porque isso acontece com todos e apesar de você ser um cacho de reticências, é tão errada como todo mundo - ou mais -) e quando isso acontecer, você vai olhar para trás e sentir uma nostalgia tão profunda que vai prender sua garganta, e quando isso vier à tona, eu espero sinceramente que você se arrependa de onde chegou e de quem escolheu para estar ao seu lado, porque será alguém que você não queria que fosse. Porque ele esteve ao seu lado 10 horas ou mais (ou menos) por dia e você nem se quer se comprometeu a entender, nem se quer se comprometeu a retribuir a gentileza daqueles que te diziam muita coisa sem nem abrir a boca, apenas com um afago no seu rosto; nem se quer se comprometeu a ser coerente, grata, justa e honrosa em vista ao esforço extenuante, à generosidade incalculável, à gentileza, aos carinhos, ao afã e ao afeto dos que te amaram verdadeiramente.
Você é um erro inabitável!

Todos nós somos bêbados, amando, bebendo ou espiritando... mas você, meu bem, nunca irá embriagar-se em sua vida, porque o amor é feito para pessoas raras, sensacionalistas e eternas. O amor parece ser algo nobre demais pra habitar teu peito: um ambiente inóspito, insosso, xucro e congelado. É com imensa infelicidade, com um desprazer meticulosamente orquestrado e com um alívio flamejante e aplacador que eu, no auge da minha mocidade, depois de entender a mecânica do tempo, estudar por muito tempo de maneira intensa todos os caminhos que você tomou, todas as suas atitudes, sua conduta pífia, patética e bizarra em relação à nossa bela e fugaz aventura bimestral, chego à conclusão de que você não é a Ninfa, a Morena, a Boneca, a Bússula, o Mar, a Deusa, o Cais, o Porto Seguro, o Verão, a Primavera e Outono, a Jóia, a Menina e a Estrela que eu achei que fosse, mas sim o que eu sempre sonhei durante a noite... e o que eu mais desprezo pela manhã. Eu achei que você poderia me fazer bem, mas vejo que me enganei terrivelmente. Triste é constatar de maneira sincera e sem remorso que todos os caminhos que você tomou moldaram maravilhosamente bem a imagem da pessoa que você sempre foi: uma pessoa mimada, vazia, fútil e disforme que gosta de brincar com pessoas como se fossem marionetes, mas não percebe que você é a marionete principal nesse teatro que você mesma construiu para si. Descobri que na equação da existência humana, você é o “X” que eu nunca consegui encontrar o valor, apesar das inúmeras tentativas. Você é mais suja que a França no século XIX, um desastre, em todos os sentidos possíveis, e o mundo que você desenhou só é habitável pra você e pros caprichos de uma menina insegura, cuja a imaturidade e a insensibilidade parecem ser infindáveis.




E amar nunca foi sua praia, porque convenhamos, você nunca veio do mar.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Oferenda

parte I - Autópsia


Tu és um caos sistemático
Uma bagunça coerente
Um gosto azedo na minha boca
Uma manhã cinzenta de domingo
Um natal pouco iluminado
Uma reminiscência que atravessa meu cérebro e me castiga dia & noite da maneira mais unilateral possível
Um mar morto e um campo de flores murchas, sem vida
Uma virada de ano sombria, sem fogos de artifício
Um soneto sobre indiferença, inconstância e bipolaridade
Uma escola de samba sem mestre sala nem porta bandeiras
Um tiro na noite no vazio do céu escuro
Um fracasso no amor, um amontoado de erros incandescentes
Suas péssimas escolhas refletem de maneira impecável quem tu és atualmente
E te definem de um jeito que eu nunca consegui definir com meus versos insalubres e injuriosos
Essas mesmas escolhas que também refletem a tua ruína atual e que um dia te assombrarão como fantasmas de um passado doloroso e monótono, com um nó apertado na sua garganta e um vazio sepulcral quando lembrar que todo mundo se comprometeu a entender os meus motivos, menos você, e perceber que tomou a decisão mais cômoda e equivocada possível, ao escolher o cais errado para atracar seu barco
Quando esse dia chegar, meu bem, vai sentir um nó tão angustiante no teu peito, que nem as suplicas mais poderosas serão capazes de me trazer de volta ao seu mundo
Enfim, caiu na tua própria armadilha.


parte II - Estrela do Oriente


Você teme esses sentimentos que dominam teu espírito sempre que reclina esse seu olhar irresistível, castanho e oblíquo sobre mim
E eu gosto de ser seu por inteiro
Um tiro no escuro do vácuo do teu próprio peito
O pagamento final
Esse eterno paradoxo ambulante, tão madura, fria, quente, imatura, deslumbrante, brilhante, fantástica e calculista ao mesmo tempo
Um problema que eu quero levar pra casa
Pra te condenar pro resto dos teus dias com o meu beijo mortal
Deixar meu corpo falar junto ao teu
E te enrolar nas minhas cobertas
Até que não haja mais motivos para pertencermos um ao outro
Mesmo que agora pareça tão óbvio quanto improvável
Que eu fui feito pra você e que merecemos todo o amor do mundo, por mais que não precisemos dele agora
(Precisamos dele).

Em todas as semanas dos últimos meses, lhe dediquei as melhores horas dos meus dias, te escrevi os melhores versos e os piores também (os piores também).
Escutei seus melindres, te falei para ser forte e não se preocupar tanto com o futuro, pois ele está sempre acontecendo.
Te mostrei que as diferenças são essenciais para que possa ser estabelecido um certo grau de equilíbrio.
Me mostrei para você da maneira mais lateral, enxuta, nua e sincera possível, caminhei ao teu lado 4 dias por semana (ou mais).
Guardei o meu pior comigo e te mostrei que a vida não tem que ser tão complicada assim.
Colei um cartaz de "procura-se" com várias fotos suas por todos os postes da cidade, e o tempo cuidou do teu regresso sem cobrar resgate.
Encontrei em ti as melhores características que eu poderia encontrar em alguém, mas encontrei as piores também e, por um tempo, enxerguei a mim mesmo em você.
Segurei teu coração na palma da minha mão e sorvi para dentro de mim toda a bondade e a delicadeza que pudessem emanar do teu corpo casto.
Mas a pior dessas semanas foi aquela em que, 01 dia após eu te agraciar com algumas palavras sinceras de carinho, você me presenteou com a sua frieza glacial e com a sua indiferença bem ensaiada, como se fôssemos dois completos desconhecidos, na porta da sala que se transformou em um cemitério de lembranças desagradáveis e angustiantes.

Mas o mínimo que eu espero agora é viver tempo suficiente
Para conseguir morar em todos os seus universos, voltar com você pro mar de onde saiu e, quem sabe, conseguir viajar ao centro da terra e dar a volta ao mundo em 80 dias, com o intuito de te trazer a terra média, a força, a massa, a aceleração, a guerra nas estrelas, as viagens interestelares, as aventuras intercontinentais, a república galáctica, as placas tectônicas, as crônicas, as guerras clônicas, os anéis, os brincos, as pulseiras e os cordões, as botas, os vestidos de seda, os casacos de veludo, o amor clandestino, as cores púrpuras, todas as estações, a orquestra imperial, todos os cometas, o pôr-do-sol, o antes e o depois, a sintaxe, a semântica, a gramática normativa, todas as vidas que eu tiver ao seu lado e todas as eternidades também, para que possamos coexistir na mesma superfície terrena, juntos, compartilhando da mesma tensão espiritual
E te mostrar que, à despeito da tua dissimulação e de toda petulância, algo que eu queria muito agora é uma cabeça pra recostar e dormir no meu ombro. De preferência a sua.